sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

É Hoje!- Estréia na PIER FM

É hoje. Às 22:00 horas estréia o programa CAFÉ LITERÁRIO na PIER FM. O conteúdo deste blog vira programa de rádio. Todas as sextas-feiras um programa novo.
O tema de estréia é GRACILIANO RAMOS e os SETENTA ANOS DE PUBLICAÇÃO DE VIDAS SECAS, o romance.

Um programa feito com cuidado, bastante pesquisa, muita música.
Convidamos os leitores do blog a se transformarem em ouvintes.
Nas próximas edições teremos vários assuntos, sempre relacionados à literatura. Inclusive entrevistas.
Aguardem.
Portanto, nos encontramos às 22:00 nas ondas da PIER FM

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Rádio Vitrola, na PIER FM

Estréia hoje às 21:00hs na PIER FM, nosso programa Rádio Vitrola. É uma extensão deste projeto aqui, o blog. Lá falaremos dos bastidores da música brasileira, teremos resenhas e outras notícias interessantes para deleite dos amigos blogueiros que nos prestigiarem com sua audiência.
Estamos muito animados com nossa nova faceta de radialistas. Eu e a Aninha, só pensamos nisto nesse momento.
Aguardem que virão novidades!

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Primeiro post do ano!

Considerações à hora do jantar

Carlos Bruni


( ! ) Isso lá é vida? Trabalhar o dia inteiro, chegar em casa, jantar e assistir televisão. Ah, se não fosse o faroeste... Chego aqui caindo aos pedaços, janto um arroz com feijão que vejo há quase vinte anos e ainda tenho de ouvir as reclamações dessas duas como se eu fosse Deus e pudesse melhorar a vida delas. Humpf... não consigo melhorar nem a minha... Se pudesse, começava caindo fora daquele emprego de merda, que só me enche o saco. O dia todo vendo o torno cuspir peças, uma atrás da outra, que só servem para enriquecer “seu” Armando e deixar alguns parvos contentes. E não é que os palhaços ainda saem da fábrica contando piadas e rindo? Como conseguem?


( = ) Pela cara do Manoel já posso adivinhar que teve um dia de cachorro. Mais um, para variar. Quem vive há tanto tempo com um homem percebe até nos mínimos gestos quando as coisas não vão bem. Como agora: do jeito que ele fica empurrando o feijão e o arroz, pra lá e pra cá, já sei que está de cabeça quente. Nem vou perguntar; melhor deixar do jeito que está.


( ) Ah, se eu pudesse cair fora desta casa, morar sozinha... Mas quem é que vai meter na cabeça dessas duas múmias a idéia de eu viver por minha conta? Se eu falasse nisso, o velho ia me encher de porrada, “filha a gente cria pra arranjar um bom marido e constituir família”, e estufa o peito quando diz isso. Está crente que é o dono da verdade, que mulher é pra prendas domésticas. Que nem a burra dessa daí. Nasce, cresce, quando pensa que tá virando gente vem um pé-rapado qualquer e com uma boa conversa ganha a idiota. Aí casa e entra pra lista das donas-de-casa. Donas de quê? Essa daí só tem de seu a dureza dessa vida besta.


( = ) Mas tem suas vantagens. Quando está assim é sinal que não irá me procurar, de noite. Ainda bem, porque estou morta de tanto trabalhar como uma mula de carga. Não é brincadeira, mas parece que lavei a roupa de um batalhão inteiro. E somos só nós três; nunca vi gente pra sujar roupa como esses aí. Se ao menos a Neuzinha me ajudasse... Mas, agora, com esse negócio de trabalhar fora... Quer ser independente. Ela ainda vai ver essa independência se acabando num tanque cheio de roupas e limpando merda de nenê. Bem, ao menos ainda ajuda um pouco nas despesas e tem um dinheirinho de seu, pra gastar. E eu? Até que gostaria de ganhar algum, mas se falasse em trabalhar fora, esse animal me cobriria de pancada. Nem sei como ele deixou a Neuzinha...


( ! ) Olha só essas duas. Caladas como dois postes. Mulher é assim mesmo. Sabe Deus o que conversam quando estão só elas. Corto o meu saco se a Isabel já não fez a cabeça da Neuzinha a meu respeito. Deve ter falado pra ela que o pai só anda de mau humor, não dá dinheiro em casa... É verdade que esse dinheirinho não é lá grande coisa, mas é suado, é honesto e bem ou mal, vamos vivendo. Será que preferiam que eu fosse como aqueles mandriões do bar? Todas as tardes dizendo “como é, Mané? Que tal uma sinuca? Chega aí pra uma cervejinha”. O que eu ganho vindo direto pra casa, é isso: carrancas. E uma cerveja, que é bom, só aos domingos e olhe lá. Ah, se um dia eu ganhasse na loteria, virava tudo de pernas pro ar. Essa história de que dinheiro não traz felicidade é consolo daqueles que erraram a loteria por um número.


( = ) Que posso fazer? Pra comprar um vestidinho nas Pernambucanas tenho de ficar alisando essa besta por um mês, pegar de bom humor. Do contrário, é aquela cantilena: “vestido novo, pra quê? A gente nunca vai a lugar nenhum...”


( ) Comigo vai ser diferente. Posso até demorar pra sair daqui, mas quando sair, vai ser em grande estilo. O cara vai ter de ser rico, bonito. O amor vem depois, com o tempo. Eu sei como são essas coisas...


( = ) Paciência, Isabel. Não era você quem estava louca pra casar? Se soubesse... O Manoel até que é um bom sujeito, às vezes. Mas, qual é a mulher que quer um bom marido “às vezes”? Quando ele não é, só Deus sabe o que tenho de agüentar. Pior é que não tenho nem com quem desabafar. A Neuzinha é uma alienada. Quando não está naquele escritorinho de contabilidade, passa o tempo lendo essas ridículas fotonovelas. Nem de escola quer saber. Não dá mesmo pra conversar. E depois, ainda ia piorar mais as coisas, ficar contra o pai, coisa e tal. Paciência, paciência...


( ! ) Amanhã, vou ter uma conversa com o “seu” Armando. Ele tem de entender que precisa dar uma melhorada no meu ordenado. Com esse papo de livre negociação, o cacete, acho que está é me enrolando. E a situação aqui em casa, cada vez mais preta. A Isabel só chora, pedindo dinheiro pra fazer a feira. A incompetente da Neuzinha pensa que recebo rios de dinheiro. Ainda bem que arranjou esse emprego e está pesando menos no bolso. Mesmo assim, as coisas não estão boas, não.


( = ) Espero que a água volte logo. Lavar essa pilha de louça, no balde, é um tormento. Por que essa porcaria de água não acabou antes de eu ter lavado a roupa? Pelo menos não estaria neste bagaço. Pobre, nem nisso dá sorte.


( ) Que dia... Como se não bastasse ter de agüentar aquele papo cretino das meninas, chego em casa e encontro esse clima de velório. Pior que depois disso a gente ainda tem de aturar o Jornal. Se ao menos depois desse pra assistir a novela... O diabo é que o velho não perde a sessão bang-bang, nem que a vaca tussa. Que pobreza, meu Deus! Casa com uma televisão só, não dá. Na minha, eu vou ter TV até no banheiro.


( ! ) Há quanto tempo não tomo um vinho? Sorte que de vez em quando vamos pra casa dos pais dela. O velho Nogueira, malandrão, é que sabe viver a vida. Só toma Chatô Duvaliê. Pelo menos ele não é regulado. Faz questão que eu acompanhe em cada copo. Quem sou eu pra rejeitar? Por outro lado, o maldito não nega a raça; está sempre a tirar uma casquinha comigo: “Manoel, Manoel, tu não sabes aproveitar a vida. Precisas viajar. Não tens saudade da terrinha?” O filho da puta sabe muito bem que ganho uma merda de salário e vem com essa conversa pra cima de mim, só pra me humilhar. Se eu fosse como ele, que enriqueceu explorando aqueles cortiços, estaria bem melhor agora. Deixa estar. Quem mandou ele me dar a filha única? O dia que aquele diabo bater as botas, ponho as mãos naquele dinheirão todo. Mas, azarado como sou, é capaz que eu vá antes daquele aldrabão.


( = ) Já vi esse sorriso na cara do Manoel outras vezes e nunca, esses anos todos, consegui saber em que estava pensando. De uma coisa tenho certeza: não é por causa da comida; mesmo comendo como um morto de fome, posso esperar sentada por um elogio dele.


( ! ) Coitada da Isabel. Eu nunca elogio sua comida. E olha que este picadinho está uma delícia. Uma delícia mesmo!


( = ) Que nojo!...


( ) Parece um porco...


E-mail: c.bruni@uol.com.br

Este texto tirei do PROJETO RELEITURAS, link alí ao lado na sidebar. Supimpa!

Ah! novidades: o Rodadas virou programa de rádio. Irá ao ar às sextas-feiras às 22:00 hs. Com o nome de Café Literário. Na PIER FM. Estréia em 16/01/09. Não percam.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Desejos de um final de ano feliz

Com estes dois últimos posts que voces podem ler abaixo, despeço-me dos queridos leitores neste ano de2008.
Entramos em férias coletivas, como de resto o país todo, quiçá o mundo.
Prometo para 2009 cuidar deste espaço com mais atenção e carinho. Enfrento novas aventuras.

Posso adiantar uma novidade: o Rodadas Literárias vai virar programa semanal de rádio.
Ainda será definido o dia da semana em que irão ao ar os programetes. Não mais do que quinze minutos de papo sobre o mundo literário, forrado com boa música.

Estou muito animado, como podem perceber.
Portanto, não vejo a hora do ano novo chegar.
Aos queridos leitores,

FELIZ NATAL E UM 2009 CHEIO DE ALEGRIAS

Mais livros, ainda em 2008

O homem que habita no limite

Reverberações da Fronteira em Horacio Quiroga estuda obra do escritor uruguaio feita sob a desgraça

Francisco Costa


É comum, usual mesmo, surgirem títulos originários ou de dissertações de mestrado ou de teses de doutorado sobre autores de todas as nacionalidades. Na América Latina não é diferente. Legiões de pesquisadores têm se debruçado sobre a obra, e vida, de escritores do continente, aumentando, e muito, as fortunas críticas.

Dessa forma, não seria de surpreender um volume de análise da obra de um escritor do porte do uruguaio Horacio Quiroga (1878-1937). O que chama a atenção, no entanto, antes de mais nada, é o fato de que o livro Reverberações da Fronteira em Horacio Quiroga seja resultado de um (excelente) trabalho do jovem pesquisador brasileiro Wilson Alves-Bezerra que, no volume, mostra tanto desembaraço no trato com a obra como uma personalidade crítica que não se dobra aos pontos de vista de alguns dos medalhões latino-americanos, brasileiros inclusos.

Mas quem é esse Horacio Quiroga, escritor nascido em Salto, Uruguai, no último dia de 1878, que viveu a maior parte de sua vida na Argentina e relativamente pouco conhecido dos jovens leitores brasileiros? Antes de mais nada, é preciso dizer que Quiroga foi um mestre na arte do conto e teve como modelo autores como Edgar Allan Poe, Kipling, Dostoievski e Maupassant, como ressalta o autor do livro.

Alves-Bezerra não trata da vida do escritor, mas não se pode deixar de fazê-lo aqui, haja vista que não tenho notícia de nenhuma vida de autores latino-americanos que tenha sido tão marcada pela desgraça, que seja tão trágica.

Sabe-se que Quiroga, na infância, era asmático e gago (falava monossilabicamente) e sua desventura começou aos 2 meses de idade quando seu pai, Prudêncio, ao descer de uma canoa disparou acidentalmente sua espingarda e não sobreviveu ao ferimento. Sua mãe, Juana, 12 anos após, casou-se com Ascencio, por quem Quiroga nutria um grande afeto. Cinco anos depois, Ascencio sofreu uma hemorragia cerebral e logo após se suicidou. Horácio estava no quarto ao lado e foi o primeiro a acudir o padrasto (tinha 17 anos nessa época).

Não é só. Pastora e Juan Prudêncio, irmãos do autor, morrem de febre tifóide em 1901. No ano seguinte, ao explicar o funcionamento de uma arma de fogo a um amigo, aciona acidentalmente o gatilho e mata, com um tiro na boca, seu melhor amigo, Federico Ferrando. Quiroga vai então a Buenos Aires recuperar-se na casa de sua irmã Maria. É aí que conhece o escritor Leopoldo Lugones, que o adota quase como um filho e o convence a segui-lo, como fotógrafo, em uma expedição de estudos a San Ignacio, em Misiones - a selva argentina que tanto modificará sua vida, a ponto de nela, com as próprias mãos, construir uma casa para sua família e onde viverá por bom período.

Sendo breve. O autor de O Travesseiro de Penas casa-se com Ana Maria Cires que, depois de lhe deixar dois filhos (Eglé e Dario), se suicidará. Ele volta a se casar em 1927 com Maria Helena Bravo, 29 anos mais nova que ele e que o abandonará depois do nascimento da filha de mesmo nome. Em 1933, nova perda: um grande amigo, Baltasar Brum, político uruguaio, se suicida. Em 1937, após a notícia de um câncer gástrico, Horacio Quiroga ingere cianureto e se suicida. O mesmo destino tiveram seus três filhos.

Reverberações da Fronteira em Horacio Quiroga conta com um elucidativo prefácio de Pablo Rocca, professor da Universidad de la República (Montevidéu, Uruguai), traduzido por Teresa Cristófani Barreto. Nesse prefácio Rocca delineia o plano geral do volume e chama a atenção para a qualidade do livro de Alves-Bezerra, chegando a fazer alguns reparos à sua argumentação quanto à noção de transculturação em Angel Rama aplicada à obra de Quiroga.

O momento mais interessante do livro, a meu ver, é o capítulo em que Wilson trabalha com o "narrador fronteiro". O que seria isso, o narrador fronteiro? Vamos ao texto de Alves-Bezerra: "Diferentemente do senso comum, que toma a fronteira como uma passagem entre dois lugares, como um marco que se cruza, trato de mostrar neste capítulo a fronteira como lugar que se habita." E ele o fará a partir da análise do conto À Deriva, que pertence, talvez, ao livro mais famoso de Quiroga (Contos de Amor de Loucura e de Morte, assim mesmo, sem vírgula).

Nesse conto, um homem, Paulino, que mora na selva com a mulher, pisa numa cobra e por ela é picado. Sabendo que vai morrer, depois de se despedir da esposa, ele entra numa canoa e tenta desesperadamente chegar ao povoado mais próximo, sem êxito. Alves-Bezerra observa que o narrador, que até determinado momento havia se imiscuído na pele do personagem, dele se arroja, retomando sua posição original. Wilson chega a falar em narrador "médium".

Caro leitor, apenas pincelei o alcance do livro de Alves-Bezerra sobre o genial Horacio Quiroga. Fazer uma leitura atenta de Reverberações... é o mais sensato e inteligente a ser dito aqui. Apenas um reparo na edição: além de alguns problemas de revisão, a nota 37 da página 144 ressurge inexplicavelmente como texto na seguinte. Um trabalho deste porte merece um cuidado bem maior.

Francisco Costa é diretor da Revista USP



Reverberações da Fronteira em Horacio Quiroga
Wilson Alves-Bezerra

Humanitas, 212 págs., R$ 22

Tintas de uma permanente rebelião

Em A Mão do Amo, Tomás Eloy Martínez abdica das ficções-verdade para compor uma fábula maledicente sobre o poder

Wilson Bueno


Para quem se acostumou com as narrativas, quase sempre apoiadas no factual, do argentino Tomás Eloy Martínez, autor, entre outros títulos bastante conhecidos, de Santa Evita, O Cantor de Tango e O Romance de Perón, para ficar só nesses, irá se surpreender com o irreconhecível ficcionista de A Mão do Amo, que acaba de ser publicado no Brasil, com tradução de Sergio Molina e Lucas Itacarambi. Refeito do choque seguirá então o eventual leitor as trilhas deste autêntico "ovni" literário, em mais de 150 páginas de pura literatura e agressiva invenção.

Eloy Martínez não se prende a nada, a nenhuma convenção, a nenhum modelo face a um gênero, o romance, useiro e vezeiro em obedecer as estritas leis da tradição - de resto inócuas, por gastas e congeladas. É como se, com o título recém-lançado, estivesse disposto a se vingar de tudo o que o compromisso com fatos e eventos do "real", mal ou bem, o obrigaram, nos livros anteriores, a que não saísse dos trilhos nem deixasse a imaginação ir longe demais. E aqui, podemos assegurar, o autor argentino se vinga exemplarmente.

O que assistimos, do começo ao fim, é à história de um anti-herói por excelência, o delirante pobre-diabo Carmona, cantor lírico desde sempre esmagado sob o peso de "Mãe", a castradora e edipiana figura que pontua o romance do primeiro ao último capítulo. Com isso, Martínez inscreve e escreve a "biografia" não de um personagem "de carne e osso", como gostavam de exaltar nossas tias-leitoras, mas, pelo contrário, de uma vera "persona" de papel. E se deixa conduzir, o escritor, pelas tintas de uma permanente rebelião, sobretudo contra a nunca assaz louvada verossimilhança, "virtude" de nove entre dez romanções destinados a entreter o fim de semana de entediados executivos, aqui ou alhures. E que fazem, ou faziam, igualmente, a delícia de nossas tias minuciosas...

Como a salvar-se, de si mesmo, das "ficções-verdade" que sempre foram a sua marca, o autor argentino e professor da Rutgers University, em Nova Jersey, além de notável resenhista do New York Times, que distribui suas matérias para mais de 200 jornais em todo o mundo, não faz por menos: neste A Mão do Amo vai além de todos os limites. Embora o romance tenha um entrecho - mesmo que enredado em si mesmo -, com começo, meio e fim, nada aqui se acomoda ao tatibitate a que estamos habituados frente aos textos literários de um modo geral.

Guiados por "personagens-abstrações", "Mãe", "Pai", as "Gêmeas", a esquiza sra. Doncella (que apesar do nome próprio é quase um fantasma contraditório), e a onipresença terrível dos Gatos, estes invariavelmente na fímbria entre o sublime e o sinistro, o que Eloy Martínez compõe - antes de tudo - é uma fábula malévola e maledicente sobre o Poder. Não propriamente o dos tiranos públicos de ontem ou de hoje, mas este arraigado na prática comezinha e nem por isso menos deletéria das inter-relações pessoais, do nazi-fascismo que pode habitar nosso cotidiano - diária e insidiosamente.

Em foco a opressão e a angústia de sermos obrigados a conviver num mundo em que as trocas são sempre injustas. Desiguais os câmbios ali onde, sempre, um de nós será o perdedor compulsório; a cara a tapas; o teatro perverso de opressores e oprimidos, não necessariamente nessa ordem e nem sempre nos mesmos papéis... Um pode tomar gosto pela opressão do Outro. E invejá-la...

"Mãe" é, até por contigüidade vocabular, a mãe do "amo", a mão do amo... E Martínez não deixa de ressaltar o quanto o verbo "amar" e o substantivo "amo", em diversas línguas misturam-se a "mama", "mamãe", numa alocução cinicamente lacaniana que o escritor argentino faz questão de deixar clara. Pois nesse universo de cambiâncias, ali onde mora a grande ou a microlinguagem, é que a ambigüidade desvela as faces e contrafaces da constituição de um filho, no caso Carmona, o protagonista do romance, feito para que se ame, para que se mate, à mão, à mãe; meu amo, meu amor...

Dono de "voz absoluta", vocacionado às grandezas do canto lírico, Carmona, contudo, por mais visíveis os seus talentos, tentará tudo para chegar a ser "Um", mas fracassará, colado a esta Mãe que se amplia e expande territórios, felliniana e mantenedora de um narcisismo pervertido e para sempre original e/ou originário. Aranha ávida, "Mãe" não permite que nada escape à sua teia, posto que ama, mas com tal ódio, que chega a instruir "Pai" a que mate a cria incômoda.

A nos arrebatar em volteios estilísticos - feito um painel de Don Goya y Lucientes -, sob contínuos "disparates", de fundo e de forma, como convém aos melhores "disparates" barrocos, A Mão do Amo oscila entre o que diz e o que insinua, usando e abusando deste autêntico "hermafrodita moral" em que se "conforma" o personagem Carmona, baixo os tacões da Mãe funesta.

Numa operação literária em todos os sentidos arriscada, Tomás Eloy Martínez consagra os devaneios do inconsciente ao andado do texto e da história. Tanto assim que, em determinados momentos do livro, o sujeito da narrativa mistura-se à voz do narrador e já não sabemos distinguir quem narra do que é narrado. Narramo-nos a nós mesmos. Talvez aí uma "falha" dessa ficção assinalada por lacunas, reticências e intervalos - só ao final da prosa lancinante, o autor parece se permitir mais este disparate, agora o de embaralhar as vozes narrativas, sem que isso torne o texto, digamos, incompreensível. Simplicidade e clareza - não importa por onde a escrita ande ou desarvore.

E não bastasse "Mãe", "Pai", as "Gêmeas-Irmãs", os "Turcos", a "Voz" castratti, esta uma quase entidade; tangível; e não bastasse ainda a ambígua geografia das Montanhas Amarelas, de onde Carmona foi cuspido das entranhas de "Mãe", Eloy Martínez, no papel de um maestro febril, cobra vigor e arrebatamento a um Coro de Gatos! São eles, os gatos, que fecundam esta tragicomédia musicada digna de um palco com cenários de isopor pintados à mão; maçãs de plástico.

Mais que uma ópera bufa, A Mão do Amo parodia os "romances de formação", com o patético aqui servindo a uma irrefreável comicidade. Delirante como delirante será sempre o suplício de alguém acuado por gatos, dezenas deles, de diferentes tamanhos e pelagens, numa selvageria que põe, entre outras, o frustrado Carmona, sob o risco de ser arranhado vivo até a morte - por agulheiros de dentes e o riscar belicoso de unhas.

E, inesperado "efeito", uma vez atravessadas as fabulações pesadelares, de um surrealismo trágico e arrebatador, o que fica mesmo como saldo do aparente caos em que Tomás Eloy Martínez mergulha o leitor, é a lição cristalina - e clássica -, de que inexiste tortura, se não estiverem prontamente acordados, entre si, torturado e torturador.

Um livro raro. Reafirma o autor argentino como uma das grandes vozes da moderna literatura latino-americana. Sobretudo pelo que experimenta novas sendas para o já trôpego "realismo mágico", do qual, por incrível que pareça, A Mão do Amo pode estar em débito, mas é - acima de qualquer coisa - paradoxalmente em vários sentidos desestabilizador.

Wilson Bueno, escritor, é autor, entre outros, de A Copista de Kafka


A Mão Do Amo
Tomás Eloy Martínez
Companhia das Letras

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Notícias do Reino

Shakespeare total e em traje de gala

Toda a obra teatral do dramaturgo é reunida em três luxuosos volumes pela editora Agir, cada um dedicado a um gênero

Antonio Gonçalves Filho

ESTADÃO

Shakespeare já foi traduzido para o português por notáveis como o poeta Manuel Bandeira, que enfrentou Macbeth, o cartunista e escritor Millôr Fernandes, que se dedicou a Hamlet e a Rei Lear, e a crítica Barbara Heliodora, responsável pela tradução de nada menos que 15 peças do dramaturgo inglês - ela continua o trabalho com as outras, respondendo pela edição da obra do autor pela editora Nova Aguilar. No entanto, a tarefa de traduzir todo Shakespeare coube a um médico e poeta maranhense, Carlos Alberto da Costa Nunes (1897-1990).

Em 1954, ele entregou aos leitores brasileiros o teatro completo de Shakespeare traduzido. É essa mesma obra monumental, originalmente publicada pela Melhoramentos, que a editora Agir coloca no mercado em nova e luxuosa edição de três volumes, que totalizam juntos nada menos que 1.912 páginas. Apesar do traje de gala (todas as edições têm capa dura e colunas duplas, como as edições inglesas), o preço é bem razoável: R$ 109,00 por cada um dos três volumes (Comédias, Dramas Históricos e Tragédias).

Costa Nunes, morto em 1990, aos 93 anos, era tio do filósofo Benedito Nunes. Com um legado que inclui suas traduções de Homero (Ilíada e Odisséia), Platão (Diálogos), Virgílio (Eneida) e as tragédias do poeta alemão Friedrich Hebbel (1813-1863), o sobrinho decidiu sugerir ao editor da Agir, Paulo Roberto Pires, a reedição de Shakespeare - Teatro Completo. "Foi uma coincidência e tanto, pois os livros já estavam na gráfica quando Benedito me procurou", conta o editor. Publicadas pela Melhoramentos nos anos 1950 e 1960, as traduções de Costa Nunes podiam ser encontradas em edições esparsas de bolso, não revisadas desde os anos 1970. O editor da Agir considerou urgente uma reedição corrigida da obra teatral completa de Shakespeare.

As traduções de Carlos Alberto da Costa Nunes diferenciam-se do trabalho de alguns tradutores brasileiros por manter fidelidade formal a Shakespeare, respeitando seus versos. Até demais, segundo alguns críticos, que no passado o acusaram de certo arcaísmo, não só pela escolha das palavras, mas por sua insistência na tradução versificada (os tradutores, hoje, preferem o caminho formal da prosa). Seu modelo é o decassílabo heróico, o que lega aos atores brasileiros mais uma dificuldade, além do natural desafio de interpretar Shakespeare. Assim, é uma tradução para se ler, mais do que para ser apresentada no palco. Seria preciso um elenco de talentosos herdeiros de Laurence Olivier para encarar os versos dramáticos do texto original sem tropeçar na forma, especialmente no caso de Ricardo III (a prosa é exceção, não regra no drama histórico de Shakespeare).

Algumas traduções são analisadas pelo médico poeta, que também oferece sua visão particular da obra do dramaturgo numa pequena introdução. Como bônus, a nova edição traz o quadro cronológico de todas as peças. O médico era preciso em seu diagnóstico. Não perdoou, por exemplo, os excessos da tragédia Tito Andronico, uma das primeiras escritas pelo autor (provavelmente entre 1584 e 1590), atribuindo seu gosto pelo canibalismo aos exageros e à falta de senso estético da juventude. Shakespeare extrapolou na peça do general romano. Parece o Tarantino da época.